domingo, 18 de Agosto de 2013

Meia-Noite (2)

Dito isto, a minha querida mulher morreu passado 2 horas. Cada vez mais chego à conclusão que o tempo não tem pressa para nada, já passaram quatro anos desde que me deixou e parece que foi há frações de segundos. Tenho vivido a minha vida calmamente com a companhia dos meus queridos filhos e amigos, tentando sempre dar sentido a tudo o que me acontece e rodeia e a verdade é que tenho coisas maravilhosas no meu mundo. Nada consegue apagar de mim as saudades infinitas que sinto, mas aceito a condição que a vida me deu, nem teria outra hipótese.
Passado tantas linhas devem estar com uma enorme dúvida acerca da natureza do meu testemunho e hão de querer saber, evidentemente, porque escrevi tudo isto. Aqui vai:
O João, que é meu melhor amigo de infância, tem um filho, o André, um garoto já com os seus 20 e poucos, que seguiu a carreira de jornalista e neste momento está a escrever um artigo para a revista em que trabalha (Não me recordo do nome),sobre histórias que ficaram por contar. O nome do artigo é "Histórias que ainda estão por pintar". 
 O João é o meu grande confidente desde que me lembro de falar e sempre soube da minha história. Então há dias, no meio de um jogo de cartas, sugeriu que contasse a minha história ao seu filho:" - Frederico, camarada, escreve o que te inunda o pensamento, não penses duas vezes. Pode ser que ela assim volte".
 Ela, a Amália, porque a minha mulher nunca deixará de viver em mim. 
 Desde então que não paro de pensar novamente em tudo o que aconteceu comigo. Quando a Amália me aparece, um sentimento de culpa renasce por causa da minha mulher, mas depois ouço as suas últimas palavras: " - Deixa-te levar, não há tempo para se ser infeliz".  Estou há dias neste vai e vem de conversas, ora com a Amália, ora com a minha mulher. Sonho com as duas a toda a hora, com tudo o que passei com a minha mulher e com o que não vivi com a misteriosa rapariga. Até já sonho com as duas ao mesmo tempo a dançarem na floresta e correrem entre os campos de girassóis. 
 Foi por essa razão que resolvi escrever-vos. Escrever-te Amália. Recordar-te Madalena.
 É Meia- Noite em ponto. Hoje faço 81 anos e achei que esta seria a melhor maneira de começar o novo ano: louvar o que vivi com tanto amor e procurar uma parte de mim que ficou para trás. 
 Apesar de naquele dia não me teres dado a mão nem inundado com palavras, continuo a ouvir-te em tudo o que nasce e morre dentro de mim a toda a hora. Ouço-te.

Frederico, 18 de Agosto 2013



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